COLABORAÇÕES

Já assistiu ao filme Spotlight? Ele retrata bem o trabalho de uma equipe de repórteres investigativos num jornal de Boston, EUA, e também as decisões orçamentárias que os dirigentes da empresa precisam tomar em função das necessidades imprevistas da investigação. No filme dá pra ver bem que os repórtes quase não têm vida pessoal. Vivem trabalhando e demoram muitas semanas para chegar a todas as informações necessárias para compor uma reportagem. Pra conseguir as informações que eles conseguem, passam noites em claro, deixam o cônjuge sozinho, deixam de comer direito, vivem descabelados e quase não têm vaidade. Mas o resultado no final é lindo de chorar. Eles conseguem fazer denúncias gravíssimas que terminam mudando a realidade para melhor. Eu, que sou jornalista, saí do cinema com um baita orgulho dessa profissão.

Se você viu o filme, tente imaginar como seria se esses repórteres, além de fazer o trabalho investigativo, tivessem de administrar o jornal e ir atrás dos recursos necessários para bancar o próprio trabalho (que o filme mostra que é caro, justamente por demandar muito tempo). Concorda comigo que não daria certo? Eles não têm esse tempo! Ou eles mergulham na investigação, ou gerenciam o negócio.

Pois aqui no canal Do campo à mesa eu sou uma jornalista tentando viabilizar meu trabalho de reportagem sem ter ninguém além de mim mesma pra cuidar do negócio. Como é que eu vou fazer as denúncias que devem ser feitas, com a devida profundidade, se eu também preciso dedicar tempo à administração do negócio? Tenho superpoderes? Não. Tenho oito braços? Não. Na verdade, não é possível. Quando uma única pessoa precisa se dividir entre todas essas atividades, ela não é capaz de realizar nenhuma delas plenamente.

Não sei se você sabe, mas o mercado do jornalismo está numa crise absurda. Quase nenhuma empresa jornalística hoje tem condição financeira de sustentar o trabalho de uma equipe como a Spotlight. Ao contrário: há cada vez menos repórteres nas redações dos jornais e revistas, há cada vez menos revistas. E o mais cruel é que o conteúdo gratuito da internet, nem sempre de qualidade, está ajudando a enterrar a carreira de ótimos jornalistas, que deixaram de fazer trabalho investigativo pra fazer, por exemplo, assessoria de imprensa, ghost writing ou consultoria.

Há esperanças? Há solução? Existe algum jeito de os jornalistas continuarem a fazer o seu trabalho?

Uma das alternativas que têm sido experimentadas é o crowdfunding por projeto, que eu vejo como um jeito novo de comprar conteúdo. Funciona assim: o jornalista divulga na internet que está abrindo uma vaquinha pra viabilizar a reportagem tal. Quem quer que a informação seja produzida paga antecipadamente para o repórter o valor que achar melhor. Quando as doações tiverem alcançado um montante suficiente (isso pode levar uns dois meses ou mais), o repórter começa a investigar. Se as doações nunca chegarem ao montante suficiente, devolve-se a grana pra todo mundo e o repórter não trabalha (e aí eu não sei de onde ele tira o dinheiro pra pagar suas contas).

A mim parece que esse é um modelo que só funciona se der inteiramente certo. Ou seja, se a campanha de arrecadação for muito bem desenhada, muito bem divulgada, se tiver grande adesão, se for rápida, se o orçamento da investigação estiver correto, se o timing for adequado etc. Ou seja, só funciona se for bem administrado. Ops, caímos de novo na administração do negócio. Quem é que vai fazer o orçamento, o planejamento, a divulgação e a administração do crowdfunding? O repórter?

Além do crowdfunding, um jornalista hoje, em tese, pode tentar bancar seu trabalho (escrevendo e) vendendo livros ou produtos digitais, palestras ou virando garoto-propaganda de alguma(s) marca(s) valiosa(s).

Seja qual for o caminho alternativo escolhido, a necessidade de planejar e administrar o negócio será sempre tão importante quanto o trabalho de investigação jornalística e o de redação e o de produção audiovisual, no caso deste canal. Um não vive sem o outro.

Esta por enquanto é uma empresa de uma pessoa só, tentando tirar do papel um modelo de negócio desafiador. É uma jornalista responsável por tudo: pesquisa, entrevistas, roteiros, operação de câmera, edição, redação, reuniões, compras, vendas, administração, frete e o que mais houver para fazer. Portanto, que não consegue fazer tudo plenamente. E que também não pode remunerar uma equipe fixa, pois as fontes de receita são insuficientes.

Enquanto isso, colaborações voluntárias e não necessariamente remuneradas nas seguintes áreas podem ajudar:

  • jornalismo (clipping, pesquisa de documentos, entrevistas, cobertura de eventos, relatórios, redação)
  • design digital e/ou desenho manual (criação de banners, posts para as mídias sociais, apresentações, ilustrações e pós-produção de vídeos)
  • publicidade (estratégias para atrair e inserir anunciantes, plano de mídia)
  • marketing digital (estratégia para ganho de audiência, publicações, monitoramento do Analytics)
  • vendas (prospecção de parceiros e clientes)
  • webdesign e programação (desenvolvimento de novas plataformas)
  • audiovisual (operação de câmera e lentes, controle de luz, controle de audio, direção de cena)
  • edição de vídeo
  • tradução (criação de legendas)

Caso tenha conhecimento, alguma experiência e disponibilidade para atuar em uma dessas áreas, você pode se candidatar a colaborador voluntário, preenchendo este formulário:

Doação e empréstimo de equipamentos também são bem-vindos. Obrigada.

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