Como interpretar o discurso da indústria

Quer saber como eu descubro as mentiras que a indústria conta? Só se for agora. Topa uma aulinha de interpretação de texto? Um, dois e… Começando!

Diz a matéria no site sobre negócios (muito provavelmente copiada de um press-release):

“A tendência de consumo de alimentos mais saudáveis é cada vez mais forte entre os consumidores brasileiros. O País é apontado como o quarto maior mercado para produtos deste segmento.”

Pausa para análise. Atenção aos termos que destaquei em laranja. Quer dizer então que existe um segmento de alimentos mais saudáveis, em oposição a um outro segmento de menos saudáveis? Será que foi isso que quiseram dizer? Veja que mais saudáveis é diferente de saudáveis. Porque o termo “mais” subentende uma comparação, certo? Então o que é mais saudável é mais saudável do que o quê? Tá comparando com quê?

Voltemos ao texto. Ele continua assim:

“De olho neste potencial, a Nestlé anuncia investimentos de R$ 10 milhões no Brasil – 30% a mais em relação a 2015 – para ações de marketing que reforcem a presença do cereal integral como principal ingrediente de sua linha de cereais.”

Para tudo. O texto começou lá em cima falando de uma tendência de consumo de alimentos mais saudáveis. Aí vem uma informação sobre a Nestlé. Ao ler Nestlé, eu já penso: opa! Tem propaganda aí. E vou buscando o que interessa… Investimentos… passa. Dez milhões… passa. Ações de marketing… Ah! Investimento em divulgação! Incluindo provavelmente a assessoria de imprensa que passou o press-release pro site. Cereal integral… sei… Principal ingrediente… Linha de cereais. Ah! Peguei! Entendi tudo. E vou explicar tudo.

Eis a minha versão do que o texto diz nas entrelinhas:

De olho no potencial de vendas para pessoas interessadas em se alimentar melhor, a Nestlé está gastando mais 10 milhões de reais (que pra ela deve ser uma merreca) em comunicação enganosa para convencer essas pessoas de que seus produtos açucarados vendidos em caixas de papelão são mais saudáveis que os da concorrência apenas por conterem um tanto de farinha integral misturada ao açúcar, às farinhas refinadas e aos demais ingredientes desnecessários da fórmula.  

Claro. Se voltarmos ao título da matéria, já podemos entendê-lo com outros olhos.

“Nestlé investe R$ 10 milhões para impulsionar linha de cereais matinais“.

Se eu já sei que “cereais matinais” (produtos processados ou ultraprocessados com excesso de açúcar) não são o mesmo que cereais (grãos integrais verdadeiramente necessários na nossa alimentação) — se você não sabe qual a diferença, corre agora pro meu canal no YouTube pra ver os vídeos indicados mais abaixo nesta página –, eu entendo facilmente que o que o título realmente significa é que a Nestlé tem grana de sobra para fazer lavagem cerebral na galera e continuar convencendo a maioria de que os seus produtos são cereais de verdade e alimentam de verdade.

O texto continua, e recomendo aproveitar a aula completa pra ficar craque.

“Seguindo a estratégia global da companhia, NESCAU® Cereal, NESFIT® e SNOW FLAKES® aparecem juntos em filme publicitário para comunicar a importância do cereal integral como fonte nutritiva de vitaminas e minerais.”

selo Nestlé integral

Olha aí de novo a mistureba que eles fazem de propósito entre cereal integral (o de verdade, que é o grão inteiro) e o produto adoçado que contém farinha integral. E olha aí eles tentando convencer você de que as vitaminas e minerais presentes no produto estavam lá naturalmente. Mas elas foram adicionadas!

Tem mais:

“Os produtos fazem parte de uma linha completa com grãos integrais e de maneira lúdica e informativa destaca o cereal integral como “Ingrediente Nº 1”.”

Será que eles estão mirando no público do canal? Já sabem que tem gente que lê a lista de ingredientes procurando saber quais os itens predominantes? Mas a gente lê a lista inteira, certo? E quem lê a lista inteira vê não só o ingrediente número 1, mas todos eles, incluindo o açúcar, as vitaminas adicionadas, os aromatizantes e tudo mais.

A matéria divulga ainda um vídeo que a Nestlé colocou no YouTube. O vídeo começa falando da importância do café da manhã. É possível que esse discurso funcione muito, porque ela usa muito, inclusive nas embalagens. Ela vem com essa conversinha (e até cita artigos acadêmicos pra endossar) de que a gente não deve pular o café da manhã (recomendação correta) pra em seguida dizer que o melhor café da manhã do mundo é o cereal matinal que ela fabrica (mentira deslavada). É normalmente assim que a indústria consegue enganar as pessoas. Diz uma verdade e embute uma mentira no meio da verdade. Ao dizer a verdade, ela conquista sua confiança. Depois que conquistou sua confiança, dá uma rasteira em você, oferecendo farinha açucarada no lugar de comida.

Então, meu caro, minha cara, só a capacidade de interpretação de texto salva. Aprenda a ler nas entrelinhas o discurso da indústria (nos sites, nos rótulos, na propaganda, em todo lugar), e você nunca mais comprará gato por lebre.

Vídeo Queremos rótulos mais criativos!

Vídeo Como deveriam ser os rótulos

Vídeo Cereal matinal caseiro

Vídeo Entenda o novo guia alimentar

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7 comentários sobre “Como interpretar o discurso da indústria

  1. A indústria fornece aquilo que os clientes desejam. Não vejo nada de errado nisso. Se os clientes querem biscoitos recheados, receberão ! Se os clientes querem cereais , terão ! Certa vez assisti uma pequena pesquisa, até ingênua, onde o apresentador disponibilizava meia duzia de marcas de chocolates em barras para degustação , sem a marca aparente, variando de chocolates de qualidade , com mais cacau e pouco açucar até os melados e sem cacau. Adivinha qual foi o preferido da maioria ? Pois é ! O povo tem paladar infantil, não conseguem perceber qualidade, preferem os sabores muito doces e muito salgados, não costumam comer frutos do mar, verduras, frutas e legumes e isso é culpa da indústria ? A indústria fornece o que o povo quer comer.

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  2. João, não temos órgão público que fiscalize apenas a propaganda. Tentaram atribuir isso à Anvisa, mas não deu certo. Por enquanto tem de ser via denúncia ao Ministério Público ou Procon.

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  3. Adorei o artigo Francine. Sou nutricionista e fundadora da Nutri Inova que compartilha conhecimento e informações úteis com outros nutricionistas. Posso compartilhar na fanpage da Nutri Inova?

    Seu trabalho é excelente, sou sua fã!
    Beijos,
    Marina.

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